Sábado, 31 de Julho de 2010

Douro Património Mundial da UNESCO // 7 anos depois, que percurso e que futuro? Por: Tribuna Douro / Secção: Dossiê / 16-01-2009 Imprimir Enviar a um amigo

Alto Douro Vinhateiro – O Homem, a História e a Natureza

«Tem montes que não param de crescer, Videiras que ninguém pode contar, Oliveiras que vivem a rezar, E um rio que não pára de correr.»

                              *João de Araújo Correia*

«Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos.» Miguel Torga

«Nas terras conquistadas às fragas das montanhas, ao preço de heroísmos e tragédias sem conta, os homens do Douro criam, num milagre de sacrifício e persistência, um vinho que se impõe no mercado mundial. “Port Wine” – o vinho dos ingleses e dos apreciadores de todo o mundo – é para os paladares delicados daqueles que o saboreiam, verdadeiro “sol engarrafado”. Mas só a gente do Douro sabe quanto custa cada gota desse vinho – vinho do Douro e sangue dos homens.» Alves Redol

Alto Douro Vinhateiro – O Homem, a História e a Natureza

Rio, Homem e Vinho – sempre foi assim, sempre assim será o Douro milenar, povoado pelas gentes atraídas por um rio de mau navegar, prenhe de segredos e história, regado por bagadas de suor dos homens e das mulheres que ao xisto arrancaram a vida, mastigando as encostas até que delas jorrasse o sangue dos deuses sob a forma de vinho. Ao longo de milhares de anos, o Douro serviu de abrigo a forasteiros de todas as culturas, aqui fizeram história e deixaram marca e legado; aqui continuaram a obra de outros na transformação da pedra em terra e na luta brutal para domar o rio; aqui modelaram a paisagem e lhe foram mudando a pele como se de um fenómeno natural se tratasse, se bem que à custa de sacrifícios inimagináveis, de tragédias humanas reclamadas ao criador e de braços incansáveis de quem apenas o sol infernal dos verões e a geada dos invernos foram testemunhas. O Alto Douro Vinhateiro é chão que dá uvas há mais de dois mil anos, desde que os homens descobriram que das uvas nascidas dos xistos poderiam extrair esse líquido generoso, forte e doce, único no mundo, e dele fazer o pão de então e do futuro. Entretanto, depois do milagre da transformação das encostas em terras férteis capazes de gerar cepas de oiro, alimentadas pela cumplicidade entre o sol e o rio, o homem do Douro nunca deixou de ter resposta para as fatalidades impostas pela Natureza, adaptando a terra e a vinha às necessidades de evolução e de sobrevivência de um produto e de uma vida. Por isso se diz, com propriedade, que a paisagem do Alto Douro Vinhateiro resulta de uma obra combinada entre o Homem e a Natureza feita ao longo de séculos, ilustrando de forma exemplar o conceito de «Paisagem Cultural Evolutiva e Viva» Por isso a UNESCO lhe concedeu a classificação de «Património Mundial da Humanidade».

14 de Dezembro de 2001 – A UNESCO reconhece o Douro Património Mundial É verdade que estamos a falar de um sonho antigo, mas foi apenas em 1998 que a Fundação Rei Afonso Henriques assumiu a candidatura do Alto Douro Vinhateiro à classificação de Património Mundial da UNESCO. Uma equipa de durienses brilhantemente coordenada pelo Prof. Fernando Bianchi de Aguiar haveria de preparar e elaborar a candidatura, alimentando em toda a região a expectativa de que o Douro Vinhateiro viria a ser a quinta região vinícola do mundo a merecer esta classificação. Compreendendo uma mancha de 24.600 hectares, cerca de dez por cento da área da Região Demarcada do Douro com 250.000 hectares, dos quais apenas 48.000 representam a plantação da vinha, e, passando por 13 concelhos da região – Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Alijó, Sabrosa, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Lamego, Armamar, Tabuaço, S. João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa – este território estende-se ao longo das encostas do rio Douro e dos seus afluentes como os rios Varosa, Corgo, Távora, Torto e Pinhão. A 14 de Dezembro de 2001 chega de Helsínquia a notícia que o Douro ansiava – a UNESCO acabava de reconhecer o Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial justificando essa classificação com três dos critérios da Convenção do Património: «A região do Alto Douro produz vinho há dois mil anos e a sua paisagem foi construída pelas actividades humanas; Os elementos da paisagem do Alto Douro ilustram toda a diversidade de actividades associadas à viticultura – terraços, quintas, aldeias, capelas e estradas; A paisagem cultural do Alto Douro é um exemplo excepcional de região vitícola europeia tradicional, reflectindo a evolução desta actividade ao longo do tempo.» O Douro criou uma plataforma de esperança para o futuro da região. A classificação de Património Mundial deveria trazer ao Douro mais turismo, maior investimento, maior desenvolvimento e mais oportunidades, maior fixação de população na região e consequente ordenamento territorial. A acrescentar a tudo isto, a obrigatória preservação da mancha classificada impunha tomadas de medidas de protecção das vinhas tradicionais e melhores condições de ambiente.

O percurso até aos nossos dias – um saldo positivo A UNESCO exigiu a criação de organismos que assegurassem a salvaguarda, gestão e valorização da paisagem cultural. Nesse contexto, foi elaborado o Plano Intermunicipal de Ordenamento do Território (PIOT),o primeiro do género a ser criado em Portugal, um instrumento de gestão territorial que prevê uma série de orientações estratégicas para os treze concelhos incluídos na zona a classificar. Para garantir os meios financeiros e técnicos necessários à concretização das acções previstas, o documento propõe a formalização de um pacto de desenvolvimento entre as treze câmaras e os ministérios do Planeamento, do Ambiente, da Agricultura, da Economia e da Cultura. O PIOT previu a criação de duas estruturas de apoio à gestão e salvaguarda da paisagem: o Gabinete Técnico Intermunicipal do Alto Douro Vinhateiro, com funções de ordenamento e gestão do território, ao qual se torna obrigatório pedir parecer para intervenções nesta região; e a Associação Promotora do Alto Douro Vinhateiro, com funções consultivas, que agregará diversas entidades na recuperação de bens e na preservação, valorização e promoção da paisagem vitícola classificada. Como têm funcionado ou se têm funcionado na sua plenitude é uma reflexão necessária em cada momento. Tudo parecia estar previsto e a janelas de oportunidades para o desenvolvimento do Douro finalmente aberta, porém, no inicio da classificação nem tudo funcionou, diga-se, da melhor forma, e ainda hoje é possível observar ao longo da mancha classificada o resultado de alguns atropelos e de alguma permissividade – construções desajustadas da paisagem que a ferem de forma indelével; a destruição, reconversão e plantação de vinhas feita já na área classificada, sem respeito pelas normas e tradição consideradas pela UNESCO; a existência ainda de alguns pequenos “ponto negros”capazes de ferir a paisagem cultural evolutiva e viva. Porém, são várias e muitas as razões que nos permitem afirmar que o saldo é positivo. O fluxo turístico aumentou consideravelmente nas suas várias vertentes – hoje sobem o rio Douro mais de 200.000 turistas por ano e aumentou a qualidade e segurança da navegação através da construção de novas estruturas fluviais de apoio; há mais empreendimentos hoteleiros de grande escala que se destacam no todo nacional pela sua qualidade; aumentou a construção e requalificação das acessibilidades viárias à região; foram eliminadas as grandes dissonâncias ambientais do Douro e irradiadas mais de uma centena de lixeiras. Para além disto, não é indiferente a estas acções e a este desenvolvimento mais visível o facto de o Douro ser hoje considerado pelo governo e pela OMT um pólo turístico de excelência. O Plano de Desenvolvimento Turístico do Vale do Douro entra finalmente em acção e o novo QREN abre as portas ao seu financiamento.

“Saudades do Futuro” O sociólogo António Barreto, no seu livro “Douro”, classificou a região e a sua viticultura como “um dos mais importantes pólos de modernização da economia e da administração pública”. Mas hoje, esta região, que já foi a mais moderna zona agrícola do país, está envelhecida e isolada. A desertificação das freguesias ribeirinhas do Douro e o consequente envelhecimento da população são problemas graves que caracterizam a realidade da região. Só nas últimas duas décadas, os 13 concelhos que integram o Alto Douro Vinhateiro, agora classificado, perderam quinze por cento dos seus habitantes, ficando reduzidos a pouco mais de 180 mil pessoas. Apesar de todos os esforços, tem sido difícil travar a deslocação das pessoas para o estrangeiro ou para o litoral. E para combater a falta de mão-de-obra, muitos proprietários rurais recorreram ao trabalho de imigrantes. Trezentos anos depois de os espanhóis terem ajudado a erguer os socalcos do Douro, são os ucranianos e moldavos que ajudam a extrair das entranhas da região o precioso néctar. Embora no Douro se produza um bem que é a principal exportação do sector primário - o vinho do Porto e os vinhos de mesa Douro -, esta é também uma das regiões menos desenvolvidas do país. Mais de noventa por cento dos trabalhadores da região duriense são pequenos agricultores, que vivem apenas da vinha e do vinho. Todavia, este percurso de sete anos teve consequências positivas para a região e para os durienses, nomeadamente ao nível da evolução de mentalidades e à criação de hábitos de trabalho em parceria, como, aliás, a isso obriga o futuro. A base da economia é o vinho e vai continuar a ser, contudo, é desejável que o turismo seja cada vez mais o segundo produto da oferta duriense. Para isso é necessário um plano de marketing abrangente que ainda não existe, mas existem, claramente, valores específicos que combinados podem permitir uma divulgação capaz da excelência do Douro. Por exemplo o turismo cultural é essencial para o perfil do turista dos nossos dias – hoje quem visita o Douro é seguramente um turista mais informado, mais culto, que não escolheu o Douro por acaso, e isso implica maior exigência. A paisagem evolutiva e viva pretende-se que seja cada vez mais uma combinação da inovação com a tradição, onde é desejável a conciliação da paisagem mais tradicional com a reconversão da vinha, desde que sustentada. Muito mais do que uma marca para satisfação interna, “Douro Património Mundial” pode e deverá ser a alavanca motivacional e a responsabilização dos durienses para construir um futuro que está cada vez mais nas suas mãos, as mesmas mãos, o mesmo querer e a mesma sabedoria com que os nossos antepassados transformaram e criaram a riqueza e a paisagem de que hoje nos orgulhamos.

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