Sábado, 31 de Julho de 2010

UMA CONVERSA DE AMOR Por: Mário Mendes / 16-01-2009 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Tenho frio. Não percebo onde estou. Parece-me um Hospital. Será que estou doente? Será que estou num Hospital?
- Desculpe, como se chama?
- Sou a enfermeira Cláudia. Como está hoje D. Margarida?
- Enfermeira? Então estou no Hospital!
- Não. Não está. Então já se não lembra que está aqui no Lar da Nossa Senhora da Boa Esperança? - Porque é que aqui estou?
- Está doente e não precisa de estar num Hospital. Eles lá tratam de outro tipo de doentes. A senhora poderia estar em casa. Não necessita de cuidados médicos permanentes.
- Então porque não estou na minha casa?
- Os seus filhos trabalham e não podem ficar a tomar conta de si durante todo o dia. Tem de tomar a medicação e as refeições a tempo e horas e tem de se distrair. Por isso aqui está!
- Porque é que há tanto barulho?
- Hoje é domingo e aos domingos há mais visitas.
- Visitas? E eu não tenho visitas? Sempre gostei de receber visitas.
- Já devem estar a chegar. Por isso a venho buscar. Vou pô-la na cadeirinha de rodas e vai para a sala ver televisão até a sua filha chegar.
- A minha filha? A Inês ou a Susana?
- Hoje deve vir a Susana. Mas talvez venham as duas. Olhe. Ali vem a sua Susana. Ela leva-a para a sala de visitas.
- Olá mãe, então como está hoje? Como está enfermeira Cláudia?
- Estou bem. Estava a falar com esta nova enfermeira. Como é que sabes o nome dela?
- Oh mãe! A enfermeira Cláudia já aqui trabalha há muito tempo e é ela que costuma tratar de si.
- Já não me lembrava. A tua irmã Inês é que já cá não vem há muito tempo. E eu gosto tanto dela!
- Mãe, a Inês esteve aqui ontem e ficou de voltar hoje.
- E o teu pai? Vem com ela?
- O pai morreu mãe! Não se recorda? Já morreu há três anos.
- Pois é. Esqueci-me. Tenho tantas saudades dele.
- Vá lá, não chore. Vou levá-la para a sala. Está ali o seu genro, o Paulo, e hoje veio a Vanessa. E trouxe-lhe um miminho.
- Já sei! Trouxeste-me ovos-moles. Aqui nunca me deram ovos-moles.
- Como está D. Margarida?
- O Vó, deixe-me dar-lhe um beijo.
- Como estás linda Vanessa! Já nem me lembrava de ti. E tu, Paulo, como estás?
- Bem como anteontem.
- Estiveste cá anteontem?
- Estivemos mãe.
- Engraçado. Há bocado parecia-me que estava frio. Mas não está. Está?
- Não mãe. Está o aquecimento central ligado.
- Porque é que me não levam para a minha casa?
- Oh mãe. Como nós gostávamos de o poder fazer. Mas a mãe não pode estar sozinha. Precisa que lhe façam as refeições e lhe dêem a medicação. E nós temos de ir trabalhar.
- Pois é. Desculpa. Mas aqui estou bem. Só não conheço ninguém e alguns nem sequer me falam.
- Então já vão embora? Ainda agora chegaram!
- Já passou uma hora e as visitas têm de sair. Além disso o Paulo ainda tem de passar pela empresa para enviar um e-mail e fazer um telefonema para os Estados Unidos! Na próxima semana vimos cá outra vez!
- Vem sempre que possas minha filha! Gosto tanto de vós!
- A enfermeira leva-a para o quarto. Adeus mãe, deixe-me beijá-la.
- Dá-me outro beijo! Dei-te tantos quando eras pequenina e, nunca, me cansei de te beijar. Adeus meus filhos.
- Adeus mãe!
- Enfermeira Cláudia: Está um bocadinho de frio não está?

1 Comentário Feed

Luís Andrade - Penafiel · escreveu em 20-01-2009 às 21:29:30
Portugal está realmente repleta de bons e notáveis escritores. Esta crónica do Mário Mendes, como outras que venho lendo ao longo dos tempos, é de uma sublime e apaixonante beleza.
Obrigado Mário e continue, os leitores agradecem.
Parabéns à Tribuna pelo novo grafismo. Está linda.
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