Sábado, 31 de Julho de 2010

Mirante Por: Bernardino Barros / 16-01-2009 Imprimir Enviar a um amigo

CONFISSÕES

«Portugal gasta em cada ano, mais do que aquilo que produz». (Cavaco Silva, 01.01.2009)

Confesso, aqui e agora, que adoro o Natal. Gosto do seu espírito de união, de solidariedade, de pensar mais nos outros e não tanto em nós, do espírito de alegria que ele transmite e principalmente do ambiente familiar. Pena que esses sentimentos não durem todo o ano, porque, muita das vezes, basta só um pequeno gesto de cada um de nós, para transformar a vida de alguém, nem que seja por breves momentos. É a altura em que se fazem balanços e se projecta o ano seguinte.

Na política apontam-se caminhos para tornear as dificuldades em que o país mergulha dia após dia, no desporto, e por míngua dos habituais mexericos do dia-a-dia, dá-se finalmente voz aos verdadeiros artistas do desporto, aos treinadores e jogadores.

Foi assim que tivemos excelentes entrevistas com Carlos Queirós, Jesualdo Ferreira, Bernardino Pedroto, Nuno Gomes e tantos outros, que durante o ano sofrem o efeito “mordaça” dos novos ventos de comunicação dos clubes. Na política é a altura apropriada para os nossos governantes, sem “paninhos quentes”, nos darem os discursos de Natal (Governo), pintado em tons rosa mas ainda assim com nuances escuras, e de Ano Novo (Presidente da República), acentuadamente negro e que nos deixa com a sensação que vamos mergulhar num túnel bem longo e sem luz ao fundo do mesmo.

Nesta parte, não vislumbrem qualquer intenção da minha parte em reavivar os acidentes de túnel ocorridos na última jornada “futeboleira” de final de ano, onde as luzes são desligadas propositadamente, até porque confesso (mais outra) que o único túnel que me interessa, é do Marão, que permitirá fazer a ligação Porto/Vila Real/Régua com mais celeridade, conforto e segurança. Vale a pena atentar nos principais pontos do discurso de Cavaco Silva, frio, consciente, determinado e com um aviso sério aos governantes presentes e futuros:

• “Receio o agravamento do desemprego e o aumento do risco de pobreza e exclusão social”.
• “Portugal não pode continuar, durante muito mais tempo, a endividar-se no estrangeiro ao ritmo dos últimos anos”.
• “Os dinheiros públicos têm de ser utilizados com rigor e eficiência.”
• “Os portugueses gostariam de perceber que a agenda da classe política está, de facto, centrada no combate à crise”.
• “As ilusões pagam-se caras”.

Lendo tudo isto de um fôlego, fica-me a dúvida se o governo de José Sócrates é capaz de levar a cabo esta tarefa, ou seja, colocar a navegar o barco do governo de molde a enfrentar as ondas das eleições legislativas. Voltando ao discurso de Cavaco Silva, muitas dificuldades nos esperam em ano de eleições triplas (europeias, autárquicas e legislativas), em que é necessário, premente e obrigatório, reverter a tendência do desemprego (nos finais de Novembro 2008 o número já ia muito perto do meio milhão) que se verifica nos últimos dias, mas sem grande expectativa como se vê pelas notícias dos últimos dias.

A crise vai valendo para tudo, até para justificar os despedimentos, o recurso ao “layoff”, e outras decisões que às vezes, mais não são, que a tendência para encobrir o acto de não saber administrar. Por isso, as palavras duras de Cavaco Silva e que ilustram esta crónica, encaixam na perfeição para os mais diversos sectores e actividades da sociedade portuguesa, sejam elas, políticas, financeiras ou desportivas.

Mas como não quero recorrer ao “método da dúvida” de Descartes, prometo que o meu momento de reflexão será bem mais curto.

bernardinobarros@sapo.pt

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