Onde tudo acontece... Por: / 16-01-2009
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As palavras da música na música das palavras
Uma italiana homenagem a Portugal. Uma união fora do tempo com Fernando Pessoa, David Mourão-Ferreira e Cesare Pavese. Um contacto musicado com a Poesia. Um diálogo com o transcendente. Um reencontro. Ontem à noite o pequeno auditório do Centro Cultural de Belém cresceu alguns centímetros após o espectáculo: Mariano Deidda canta Pessoa. Simplesmente genial e divertidamente sério.
Um a um os músicos vão surgindo e como um fenómeno de epifania revelam a sua criação. Ao piano, Nino La Piana, iniciador, ondula o ambiente na sala. Do piano sempre saem notas com propriedade. É um instrumento tocante, que marca a diferença com as suas elevações tonais.
Luca Zanetti encaminha-se para o acordeão e, indiciando sublevações tonais, dá início à controlada insurreição do ritmo, demarca-se do piano e torna o seu instrumento um recurso estilístico. Mariano Deidda entra no palco. Logo mergulha a sua voz na dramática intensidade da poesia que seria musicada e cantada. Chega o tempo e o lugar de Diego Mascherpa ao clarinete.
Parece transportar as asas da música, quando eleva a carga tonal. No contrabaixo Roberto Chiriaco é determinante no ritmo, é a cadência na vida da música. Chiriaco é o subtil arquitecto do fio condutor da arte do som. Ocorre-me uma metáfora: a da música como um pássaro. Distribuo papéis e concluo que o clarinete é as asas; a voz é o fôlego, o respirar da ave; o contrabaixo é determinante na batida das asas; o acordeão representa as mudanças de direcção do pássaro; por fim, o piano é a contemplação do voo. Numa das várias pausas comentadas seriamente e elegantemente divertidas, Mariano Deidda fala do mito que para Pessoa “é o nada que é tudo”.
Quem na sala se encontra sabe que um puro espectáculo cultural é isto: a elevação da arte e a reflexão partilhada. A cada momento que passa, pela inteligência e pelo humor gracioso que perpassa os seus gestos e tons falados, Deidda aproxima-se de uma espécie de Roberto Benigni da música. A qualidade com que alia o artista ao homem de condição simples e desmistificadora, aproxima-o do público. O seu dedicado esforço em falar Português faz com que repita a palavra “então”. E então assim compara Pavese com Pessoa, realçando que ambos nasceram há 120 anos e têm Walt Whitman como o seu poeta preferido.
Quase caem “Folhas de Erva” no palco, numa detida e silenciosa homenagem a Whitman. Retomado o espectáculo da música, no seu aparente nada que é tudo no seu todo, o clarinete eleva-nos e trata de descodificar o mito cantado. Como fio condutor, o piano traz-nos a espuma da música. Na verdade, todos os instrumentos juntos são um corpo desmembrado que se reúne amiúde no acontecimento do milagre da música. A voz ausenta-se e o instrumental toma lugar. Cada lugar da sala é ocupado pela imaginação das palavras que não são ditas, até que Deidda regressa e o acordeão exulta numa composição de sons amigos do portador da voz que canta a poesia. Espirituoso, Luca Zanetti acompanha o divertido e eloquente Deidda. A ave, metamorfoseada em notas musicais que ondulam pelo espaço, cresce no voo. Alguns momentos planam como a alma-de-mestre no alto mar.
O democrático líder do grupo persiste na dúvida da satisfação do público e entabula conversa com ele, perguntando se deve falar mais em Português e se o seu sotaque é bom. Mariano Deidda também é um vislumbre de tenor, quando solta a voz aguda, como um Orfeu no Olimpo. O epílogo aproxima-se: “Ó mar salgado/ quanto do teu sal/ são lágrimas de Portugal…”, recorda-nos Deidda pelas palavras de Pessoa. Nesta interpretação, o piano e o contrabaixo são a alma da pele da música. No fim, o vate vira a página do seu guia e o mistério instala-se na imagem da derradeira página virada. Porém, o canto e o ritmo voltam e a poesia renasce. Aproxima-se o final do momento.
Tratou-se de um espectáculo gracioso, com a devida propriedade que a palavra encerra, puramente poético no seguimento que o caracterizou, mostrando o espírito da poesia e que esta pode estar junto do homem que a ouve e lê e ser várias formas, mesmo no gozo da arte e na vida como um jogo. Um corpo despediu-se. Um corpo de sons que, inspirado, viajou de Itália para enaltecer Portugal, fazendo dos instrumentos as palavras que acompanham a imaginação das palavras de Pessoa, das pessoas. Sem vontade de terminar, Mariano Deidda fez do público a continuação de si, como cinco almas em vários corpos espalhados pela sala, e assim a audiência foi o próprio espectáculo, cantando, conversando dentro e fora da sala. O pássaro pousou, apenas pousou.
Voará de novo, porque o que se cumpre existe. E porque Mariano Deidda cumpriu a poesia existiu.







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