Do respirar de uma elegância a Ti Por: / 06-03-2009
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É preciso ter uma filosofia para saber amar.
John Cassavetes
As primeiras palavras deste texto literário relacionam-se intimamente com o respirar de uma elegância. Representam o papel de uma mini-crónica ao serviço de uma crónica.
Houve um dia em que o dorso do crocodilo tremeu com a leve aragem que ela deixou ao passar defronte da breve névoa que, raras vezes, se mistura com o raio de sol que, não raras vezes, acompanha a minha visão do mundo – ainda agora ela continua a parecer-me um rasto de sedução que não esmorece nunca.
Aqui estou, sentado à porta de uma das suas existências, a escrever-lhe a dois passos físicos.
Começo pelo fim. Pelo fim de um momento vivido há pouco: o momento em que senti que as suas indecisões aceitam-se pela elegância com que as apresenta.
A veia que lhe serve o sonho circula sem interrupção. E assim ela deseja voar, sem perder a importância de se manter simples. Sabe o que quer. Mas por vezes recusa admitir querer o que sabe... Nem sequer se precipita perante o abismo, ou talvez o faça tentativamente no outro lugar das energias sensitivas: o mundo do subconsciente.
Por vezes há que lhe dar espaço, como o agora dado a este texto, para que ela possa inspirar um pouco e expirar ainda mais. Esvaziando-se de preocupações e relaxando assim. O que se torna curioso e ambivalente, pois ela transmite um ambiente relaxado, que pode provocar sensações no plexo solar de um observador dedicado das veredas da sua existência.
Vê-la caminhar é sentir o pulsar de um coração que sente o exotismo da sua terra natal por terras do norte do continente dos primórdios da humanidade. Ela vive lá estando cá.
A felicidade atingi-la-á irremediavelmente.
É mais uma pérola no teatro da existência. Uma pérola que rola e quer parar. Uma pérola que ao olhá-la, depois ao vê-la e por fim ao reparar nela, logo respiramos uma elegância com difíceis paralelos a adivinhar à sua volta.
A sua tulipa pode deixar sem receios entrar a orquídea na casa da sua alegria de viver.
Correlacionando factos e ideias, há as que têm o cabelo castanho, escuro, claro, loiro, ruivo, com ou sem madeixas – também o têm curto, comprido, pelos ombros, rapado com a máquina ou com a “gillette”. Elas têm olhos verdes, azuis, castanhos, ou que mudam de cor consoante a estação do ano; maquilham-se muito, pouco, ou nada; há as que usam muitos adereços, alguns, ou nenhuns; elas têm piercings, ou não têm; têm tatuagens, ou não têm; elas são altas, baixas, ou «assim-assim».
Elas são formosas, virtuosas, descuidadas, ou têm mau carácter; elas são simpáticas, antipáticas, ou «nem-assim-nem-assado»; assim como assim, há as atenciosas, sensíveis, ou egoístas e frias; são preguiçosas, ou trabalhadoras; são comunicativas, reservadas, ou muito dadas ao contacto; elas são mais inteligentes, ou menos inteligentes; revolucionárias, ou conservadoras; são defensoras dos direitos humanos, ou não; são vegetarianas, ou não.
Elas são minhotas, trasmontanas, durienses, alentejanas, algarvias, açorianas, madeirenses, ou…; elas são vianenses, aveirenses, reguenses, portuenses, conimbricences, brigantinas, lisboetas, ou…; elas são emigrantes, imigrantes, brasileiras, indonésias, timorenses, macaenses, goesas, cabo-verdianas, angolanas, moçambicanas, outras africanas, ou…
Há as advogadas ou políticas (o que significa quase o mesmo), professoras, enfermeiras, empregadas de loja, recepcionistas, ginastas, padeiras, ministras, cientistas ou polícias; são ricas, pobres, pobres ricas, ou ricas pobres (sem o saberem); há as que vivem preocupadas, ou não, ou as light.
Portanto, há as para todos os gostos. E há Marias, Natálias, Julianas, Sónias, Madalenas, et caetera, com estas e outras características. Mas esta, que na intimidade empresta o nome ao título desta crónica, sobre quem versa a epígrafe mental, sobre quem de ora em diante passo a escrever, esta que, quando a vejo, me provoca uma torrente de sensações que atravessam o plexo solar, é uma pérola no teatro da existência, é diferente, é especial. E é por ser apenas ela, pura, sem esforço. Donde, não a incluo no rol das que aqui mencionei. Apenas realço que é uma mulher timidamente destemida e destemidamente sensível e notoriamente feminina na sua existência.
Na crónica – vertente nobre da literatura e da história, conquanto também sirva o simples propósito de breve entretenimento do leitor – o autor é obrigado a explicar as ocorrências com as quais se depara de algum modo. Assim, esta, deste espaço e neste momento, encerra um tributo que não deixa de embalar. E que melhor entretenimento do que falar, escrever ou ler sobre o sentimento que faz girar o mundo?
Viver sem nunca ter amado é passar ao lado da força da vida – vulgo: amar é viver. O homem realiza-se no amor e concretiza-se na vida. Ora:
…, quando olhei para ti vi e, depois de ver, reparei – e aquilo em que reparei juntou-se ao que de ti já existia dentro de mim. Depois, quando fiquei só comigo, em casa, reparei que não conseguia deixar de te olhar, ainda, naquele momento em que já não te encontravas ao alcance físico dos meus olhos. E foi aí que percebi decididamente no que reparei. Continuo este diálogo comigo mesmo para que tu me ouças, mas, acima de tudo, para que olhes, vejas e repares…
É a esta que dedico uma orquídea, a flor da homenagem, desenhando-as no meu pensamento como sendo uma só: ela e a flor.
– É a Ti.







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