Sábado, 31 de Julho de 2010

Enólogos e o seu Estatuto Profissional Por: Jorge Almeida / 06-03-2009 Imprimir Enviar a um amigo

Aquilo que poderemos designar como a economia baseada na evidência, reconhece que Portugal possui condições edafo-climáticas muito propícias à viticultura, às quais se aliam a versatilidade e originalidade dos seus produtos vínicos, e um saber fazer tradicional, enraizado e consolidado nas populações rurais. A questão recorrente que se coloca à fileira, tem a ver com o seu nível de competitividade. É que uma análise fina permite identificar dificuldades e constrangimentos, responsáveis por um nível de competitividade aquém do verdadeiro potencial do sector, a que não são alheios o modelo fundiário, a preparação dos recursos humanos, a organização, a qualidade do produto, a sua promoção e comercialização, variáveis a que Porter deu ênfase na década passada, e que todos os estudiosos actualmente sublinham.

A definição do sector como fileira estratégica, no âmbito do Proder, constituiu uma decisão muito assertiva, não só pela majoração dos apoios financeiros estruturais que implica, mas também pelas consequências políticas, culturais e organizacionais que pode gerar. Vivemos num mundo de tal forma globalizado, com uma informação, uma tecnologia e uma mobilidade tais, que o produto corre cada vez mais o risco de ser massificado e indiferenciado. A qualidade constitui por isso o grande pilar da diferenciação e valorização. Uma qualidade a caminho da excelência, capaz de enfrentar a máxima deste ambiente comercial globalizado, em que qualquer produto, por muito bem ancorado que esteja no mercado, pode sempre sofrer o impacto negativo doutro produto concorrencial, apresentado com a mesma qualidade, mas a preço incomparavelmente menor. Por isso, o novo e grande paradigma para o sucesso e competitividade dos vinhos portugueses, que, concorrendo em mercados globais, só poderão vencer e consolidar-se nesses mercados, se, à sua tradicional originalidade e diferenciação, for acrescentada a qualidade a caminho da excelência.

Um dos profissionais mais determinantes para a melhoria qualitativa do vinho português, é sem dúvida o Enólogo. O profissional de enologia, nos seus diversos níveis profissionais, é já reconhecido em vários países europeus. Por sua vez as empresas do sector, num mercado competitivo e aberto, reconhecem também a importância crescente do profissional de enologia, na organização tecnológica da empresa, e nas tarefas de gestão que incidem na qualidade do vinho.

Para se aquilatar da fantástica evolução qualitativa dos vinhos portugueses, atribuível também aos enólogos, será de apreciar volume de vendas dos vinhos DOC e a sua tradução em valor. Para nós, basta olhar para o DOC Douro, a quantidade produzida, a média qualitativa, e a sua importância económica no contexto do rendimento dos agricultores do Douro. Se a Região Demarcada do Douro vende cerca de 500 milhões de euros em vinho, fundamentalmente à custa do DOC Porto, o DOC Douro poderá atingir 1/5 deste valor. Se as categorias especiais de Porto, há muito reconhecidas e valorizadas, eram já uma grande mais-valia para a Região, a consolidação do crescimento do Douro, traduz bem a evolução positiva do sector.

Apesar do histórico de duas décadas de formação superior em enologia, apesar dos relevantes serviços que os enólogos têm prestado à fileira, sobretudo na significativa elevação da qualidade média dos vinhos portugueses e na qualificação de excelência de alguns deles, a verdade é que estes profissionais ainda não estão providos do respectivo Estatuto Profissional, de um estatuto legal que regule a sua actividade e defina a formação necessária à obtenção dos diversos níveis profissionais. É essa a Lei que será aprovada em meados deste mês na Assembleia da República, e que tive o privilégio de elaborar e propor ao Parlamento. Avançar com este processo legislativo, é não só valorizar a fileira vitivinícola e um dos seus mais importantes grupos profissionais, mas também homenagear todos aqueles que, apesar de não possuírem percurso académico superior, construíram uma imagem muito distinta dos vinhos portugueses, e foram capazes de fazer um notável caminho de experimentação que deu lugar a vinhos de topo a nível mundial.

Com este Estatuto Profissional, haverá uma maior dignificação dos diversos níveis profissionais da carreira, e a abertura dum caminho evolutivo para um modelo de auto-regulação a trilhar nos próximos anos.

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